A coragem de seguir em frente

POSTADO EM 09 de Março de 2020


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A coragem de seguir adiante

 

 

São muitas as situações que podem parecer a nós como um abismo que se abre a nossa frente e que não conseguimos desviar. Hoje são muitos os motivos para desistir, seja pessoalmente ou socialmente. A sensação é de que não há mais lugar para a esperança de uma vida nova e uma sociedade mais harmonizada no amor.

De fato, em tempos vazios como o nosso, a vontade de desistir aumenta pois a todo momento nos dizem que estamos errados e não vivemos perfeitamente. Estamos errados em nossa maneira de comer e se vestir, o nosso corpo não é o ideal e estou fora do ideal de beleza e portanto sou feio. 

Não existe espaço para o perdão e nem reconhecimento do erro. Algumas relações são feridas por causa de mal entendimentos que surgiram através das redes sociais. Por meio dessas mesmas redes se passam informações falsas como verdadeiras. Estamos criando a cultura da ignorância através do posicionamento rígido com quem pensa diferente. Não damos oportunidade para o debate das ideias, mas há espaço para o confronto que não fica só no virtual e real leva a agressão física.

Não é possível assumir nenhum lado da polarização, pois ambos são extremistas, e a virtude está no meio. O equilíbrio é uma meta a ser feita. O caminho do meio é a possibilidade de atravessar esse relativismo. O Papa Emérito Bento XVI fala de uma ditadura do relativismo que só pode ser atravessada pelo amor. Esse amor é “charitas”, ou seja, a Caridade, que é o próprio Deus. 

A fé acolhida como “intelectus cordis” (inteligência do coração) pode ajudar-nos a fazer uma experiência profunda de “sentir e saborear internamente” o amor de Deus em nós. A verdade da nossa fé é a ressurreição de Jesus Cristo. E acolher o Ressuscitado em nossa vida é viver desde já aqui como ressuscitados. E ser ressuscitado é testemunhar no mundo que o amor de Deus venceu a morte, o pecado e o mal. Em Jesus Cristo fomos salvos e Ele ofereceu e continua a oferecer-se pela salvação do mundo.

A Igreja pode oferecer ao mundo um “depositum fidei” (depósito da fé) que contém todo conhecimento produzido destes milênios, mas como ensina o mesmo Papa Emérito Bento XVI, além do conhecimento ela pode oferecer uma verdadeira ética, pois o seu Logos (Razão) não é somente ciência mas uma Razão Amorosa pois o conhecimento cristão é ciência com amor, portanto, sabedoria.

Essa ética que é um verdadeiro humanismo pode ser encontrado nos santos e santas da Igreja. Essa é a contribuição do Cristianismo para o mundo, ontem, hoje e sempre, ou seja, o testemunho que damos de Jesus Cristo. Nos santos e santas vemos homens e mulheres que viveram uma profunda entrega a Cristo e esse amor é vivido como prática da caridade ao próximo feito justiça. 

Tenhamos coragem de seguir adiante pelo caminho do meio. Embora vivamos em tempos de extremismos, não há tempo mais propício para crescermos no amor a Deus e ao próximo. A Igreja convida-nos a uma nova atitude perante o mundo. Que possamos anunciar Jesus Cristo e testemunhá-lo buscando amar e servir aos irmãos e irmãs.

Na perspectiva da Campanha da Fraternidade proposta para esta Quaresma, reconheçamos que o bom samaritano é o próprio Jesus que nos convida a fazer a experiência de viver a fé Nele procurando agir com misericórdia para com nosso próximo. A Igreja no Brasil nos convida a ir pelo caminho do meio, chama-nos a atravessar o relativismo amando. E no meio do caminho é que encontramos aquele ou aquela que está caído ou caída, podemos “ver, sentir compaixão e cuidar” daquele ou daquela que está sofrendo. (Cf. Lc 10,33-34).

A fé opera pela caridade já ensinava Santo Agostinho. E o verdadeiro humanismo que os cristãos e cristãs podem oferecer ao mundo podemos compreender, por exemplo, nas atitudes de Santa Dulce dos pobres que foi o anjo bom da Bahia. Nas suas palavras podemos “ver” a ela mesma que vivia de modo coerente com a sua fé. 

Em tempos de “epidemia da inimizade” como ensina o Papa Francisco, cujo sintoma é a indiferença, faz-se necessário acolher na fé o amor de Cristo que renova a pessoa e a sociedade fazendo-nos instrumentos da paz. Ensina Santa Dulce dos pobres que “só o amor vence o egoísmo”.

Coragem, vamos em frente, atravessando o extremismo que toma forma de fundamentalismo, seja dentro da Igreja ou fora dela, nas instituições e na sociedade em geral. Semelhante a estória contada por João Guimarães Rosa que conta sobre as três margens do rio, tenhamos coragem e entremos na barca que o pai estava, dando um salto na fé, ou seja, empenhemos a vida no amor a Cristo e ao nosso semelhante, pois todas vezes foi a Mim que o fizeste. Coragem, sigamos adiante, vamos pela terceira margem do rio. 

E nesse tempo tão propício de voltar para o Senhor, rasguemos o coração e não as vestes, com gemidos e lágrimas, com aquilo que nos resta, que é a vergonha no rosto, aproximemos Dele e peçamos perdão pelo mal que cometemos a Ele e ao nosso próximo todas as vezes que agimos com ignorância e intolerância, isto é, quando fazemos como o sacerdote e o levita da parábola.

O Brasil vive uma “epidemia de intolerância” e nós podemos escolher outro caminho. Ir pelo meio, atravessar amando, então, para isto é preciso coragem, pois infelizmente em nome de Cristo até se pode matar o próximo hoje. 

Quem vai por este caminho não quer nada extraordinário, nem mesmo grandioso, pelo contrário, vai pela pequena via de Santa Teresinha do Menino Jesus que ensina: “Compreendi que, sem o amor, todas as obras são nada, mesmo as mais brilhantes” e ainda que o nosso caminho deve ser feito de confiança toda em Deus e de amor.

Mas seguir nesse caminho em meio aos extremismos, aos fundamentalismos, não é tão simples assim, e por isso é preciso a todo momento buscar estar em constante oração, pois é ali que vivo minha experiência de sentir-me amado e amar. E não há lugar melhor para este encontro que na Santa Missa onde Ele mais uma vez dá-se a nós como a nos dizer pela Eucaristia: Foi por vocês, porque vos amo!

Para continuar a prosseguir nesse caminho, onde buscamos o equilíbrio, esta virtude entre a razão e a fé, entre o conhecimento e o amor é preciso buscar querer conhecer para mais amar e assim servir. E para sermos fortalecidos diante das perseguições, injúrias e calúnias que sofremos por causa do Evangelho nos console o próprio Senhor que nos diz: Sem Mim nada podeis fazer; Eu estou convosco todos os dias e Coragem, não tenhais medo!

E estar com Jesus Cristo é saborear em nossa vida um amor sem limites. E sentindo-se assim amados por Ele, tudo se torna também amor mesmo as maiores dificuldades, pois podemos em tudo sentir o seu cuidado. Aquela situação inesperada que causa sofrimento é um modo Dele dizer a nós: “Eu te amo, confia em Mim!”. 

A coragem de seguir adiante me faz pensar em São Pio de Pietrelcina e o seu amor por Cristo que foi de uma intimidade sem igual. O Senhor fez um “agrado” a São Pio dando-lhe os estigmas. E vivendo na carne a Paixão do Senhor não foi indiferente a dores humanas, sejam as espirituais através de sua dedicação aos sacramentos, sobretudo ao Sacramento da Eucaristia e da Reconciliação, seja as corporais, construindo o hospital “Casa Alívio do Sofrimento”, e não podemos esquecer, o quanto sofreu sendo perseguido e injuriado. 

Mas ele pode ser para nós além de intercessor, um santo amigo que nos ajude a crescer no amor a Jesus Cristo e a sua Igreja e a não sermos indiferentes aqueles que estão sofrendo aliviando suas dores. E diante das nossas próprias dores, o sofrimento causado por causa de Jesus e seu Evangelho, ele pode acalentar-nos. 

Ensina São Pio de Pietrelcina: “Tenha Jesus Cristo em seu coração e todas as cruzes do mundo parecerão rosas”. É assim que teremos coragem de seguir adiante. Com Jesus Cristo em nosso coração as cruzes da ignorância, da intolerância e da indiferença haverão de ser rosas.

 

Pe. José Antonio Boareto

 

 

 

 

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