JESUS: ALGUÉM PARA SEGUIR E NÃO PARA ADMIRAR!

POSTADO EM 20 de Fevereiro de 2016


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Não estranhe quem lê estas linhas. Como é possível afirmar que Jesus não deve ser admirado? Parece um contrassenso. Como seguir a quem não se admira? A afirmação vai à direção de concretizar a realidade de que nem sempre se segue a quem se admira. Por muitas razões. A maior delas se baseia no pensar que não é possível dar os mesmos passos de quem se admira. Às vezes quem se admira parece inatingível e, por isso mesmo, se considera inimitável. Quando dos meus estudos de Filosofia, o professor que abordava Platão dizia que, para este, uma das maiores capacidades humanas era a da admiração. Esta envolvia o impulso para seguir o admirado. E, indo mais a fundo, admirando o Belo, a Perfeição o Humano tendia para ele. Santo Agostinho, fortemente influenciado pelo platonismo, assumirá esta ideia para mostrar que a realização do ser humano só é completa quando mergulha no belo infinito que é Deus. Lembrará, contudo, à luz do pensamento platônico, que o homem é inclinado ao Mal, embora suspire pelo Bem. Este arrazoado quer indicar a pessoa de Jesus Cristo como modelo de postura que podemos ter e imitar. Consequência do seguimento de Jesus, de sua imitação, a admiração adquirirá seu dinamismo. A admiração não é categoria estática. Ela deve levar à atitude. Em termos práticos, já o disse em outras ocasiões, há uma tendência dentro do cristianismo em olhar o Jesus glorioso em detrimento do Jesus que passa pela cruz. Muitas tendências da explicitação da fé cristã fixam seu olhar na Glória e não na Paixão. Sem perceber que ambas se iluminam, não se excluem e são necessárias entre si. Reflito isto à luz do texto do Evangelho de Lucas (4,1-13) proposto no primeiro domingo da quaresma, esse tempo simbólico que deseja despertar a consciência da conversão para a vivência dos valores propostos por Jesus de Nazaré. O texto nos fala das tentações que Jesus viveu ao iniciar a sua vida pública, logo depois de ter se submetido ao batismo de João. Afirma o evangelista que Jesus ficou sem comer durante quarenta dias e “depois teve fome”. Aí surge o diabo com as três propostas: que usasse seu poder para resolver sua fome: “Muda esta pedra em pão!”; aceitasse ser o dominador: “tudo será teu!” e ditasse normas a Deus: “Pode arriscar que Deus cuida!”. As três tentações mostram a possibilidade da perversão da missão do Senhor. Na parte final do texto Lucas escreve que o diabo se afastou “para voltar no tempo oportuno”. O Evangelho quer nos recordar que o caminho feito por Jesus é caminho possível para nós. Se admiramos sua vitória sobre o diabo é para ter claro que nós também poderemos vencê-lo. Se ficássemos na admiração pelas respostas e atitudes de Jesus e chegássemos à conclusão que ele venceu “porque era Deus”, essa lição do Evangelho seria página inócua. “Não podemos fazer como Deus faz!” Nossa admiração deve fixar-se no mistério da Encarnação: Deus que se faz, realmente, um de nós. Passa por tudo o que passamos. Com isso nos mostra como enfrentar as vicissitudes. Se Jesus de Nazaré não fosse pessoa humana ele só serviria para ser lembrado como alguém diferenciado. Seria aquele que olharíamos e, diante de quem, só nos restaria a sensação de alguém inalcançável. Jesus é, para os cristãos, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Pela sua encarnação tornou possível a todos seguir suas palavras, suas atitudes. Aderir à sua pessoa é fundamental para a plena realização do projeto divino sobre todos nós: a participação à vida de Deus na plenitude da filiação divina. Convém ainda lembrar que Jesus não foi tentado uma vez por todas. Quando Lucas lembra o “tempo oportuno” ele quer marcar que, ao longo da vida, Jesus foi sempre tentado a desviar-se da sua missão. As tentações eram conduzidas para que assumisse o messianismo real, fosse o novo rei. E porque Jesus não se deixou levar por essa contaminação ele não foi aceito. A coroação de sua missão redentora foi a Ressurreição. Mas ele quis ir até o fim, até a entrega de sua vida, para mostrar que o embate contra o Mal traz provações e cruzes. Que nunca serão fim em si mesmas. Mas serão vencidas pela Páscoa!

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