Fraternidade e Superação da Violência

POSTADO EM 14 de Fevereiro de 2018

Irmãos e irmãs!

    Com a Quaresma iniciamos o caminho para a Páscoa, centro da fé cristã e ponto alto do ano litúrgico. Tempo favorável à conversão, “tempo privilegiado para a peregrinação interior até aquele que é a fonte da misericórdia”. É, portanto, tempo propício à revisão e a retomada de nossa vocação batismal, conferindo nosso olhar para a realidade que nos cerca, com o olhar de Jesus. Assim, ressignificaremos a prática dos exercícios quaresmais. Na oração, a certeza da presença amorosa e misericordiosa do Senhor Jesus em nossa vida. Ela nos permite viver em constante ação de graças, no silêncio, no agir cotidiano, na alegria e no sofrimento. Na esmola, o convite à caridade como ápice da vida cristã e “vínculo da perfeição”, a experiência de ser e estar com os pobres, No jejum, a superação da satisfação material. Quem jejua “não vive mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e ... também a viver pelos irmãos”.

    No Brasil, a Quaresma e a Campanha da Fraternidade compõem um itinerário de libertação pessoal e comunitária, um tempo privilegiado de evangelização com atenção a uma realidade desafiadora, a exigir solidariedade e compromisso. Neste ano, com o tema: “Fraternidade e superação da violência” e o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), Igreja e sociedade se debruçam sobre uma verdadeira chaga social: a violência. Como lemos no texto base nº 36, em nossa sociedade ela está relacionada a modelos de organização e práticas que alcançam um nível institucional e sistemático de produção e perpetuação de modos de vida violentos, indo além das interações cotidianas, nas quais ela também está presente. Como é do conhecimento de todos, uma violência institucionalizada. Não se trata de expor e lamentar a complexidade da situação, que coloca em xeque, sempre mais, conceitos consagrados sobre o nosso país: abençoado, solidário e acolhedor, o que é verdade, mas que muitos não conseguem experimentar, pois são vítimas da marginalização e exclusão, muitas vezes em níveis insuportáveis.

    Amedronta – nos quando nos deparamos com as expressões “cultura da violência” ou “violência institucional” que, dentro de um sistema sócio –  econômico excludente se torna fator preponderante na geração da violência. “Um sistema econômico pautado na promoção da desigualdade produz violência, na medida que favorece o bem estar de uma pequena parcela, enquanto nega oportunidades de desenvolvimento a milhões de pessoas. Não parece razoável esperar que haja tranquilidade enquanto, sistematicamente, pessoas são marginalizadas. A injustiça traz consigo a morte” (TB, nº 72). O quadro com as vítimas da violência que aparece ainda no texto base é assustador: violência racial, contra os jovens, contra mulheres e homens violência doméstica, exploração sexual e tráfico humano, violência contra trabalhadores rurais e povos tradicionais, narcotráfico, violência e direito à informação, violência religiosa e violência no trânsito.

    Quanto ao atual sistema de justiça – aparato judicial revela-se ineficiente no combate à violência. Muitos interesses estão em jogo quando se trata do cumprimento da justiça, quando as vítimas são as que enumeramos acima. É visível ainda a desconfiança do povo na justiça e nas polícias. Faz – se urgente uma discussão ampla envolvendo as instituições encarregadas das leis penais como também as de segurança pública com vistas à diminuição da violência.

     A iluminação da proposta da Campanha da Fraternidade, como todos os anos, encontra-se na Palavra de Deus e da Igreja. Deus não é o autor da violência. Quando ela aparece nos textos sagrados, é preciso levar em conta não só o texto presente, mas seu contexto histórico, original e cultural, para saber do que realmente se trata.

    O que sabemos e sustentamos é que, ao terminar a obra da criação, “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,25). Quando homem e mulher, na autossuficiência, rompem com Deus e com o seu projeto, desfazem a amizade com ele e com o próximo, criando divisão e morte. Ele, porém, jamais abandona a sua obra e sempre oferece meios de superação.

    No seu Filho Jesus está o caminho da reconciliação e da paz. Ele elimina toda violência quando oferece o seu próprio corpo que, morto e ressuscitado, propicia o caminho da vitória sobre toda forma de mal. Igualmente a Igreja crê que apenas quando a humanidade voltar-se às suas origens será capaz de superar a violência e viver a fraternidade.

    Louvamos a Deus pela busca constante da superação da violência pela cultura da fraternidade. São muitas as experiências, algumas relatadas no texto base, às quais têm revelado eficácia na construção de uma sociedade mais fraterna, desde as relações familiares até as instituições responsáveis por promover a vida e a liberdade.

    É preciso acreditar que pessoas e situações, por mais difíceis que sejam, são passíveis de mudança. Destacamos uma experiência de superação realizada na Fundação Casa de Franco da Rocha, pelo voluntário Sandro Cardoso e equipe que o acompanha (cf. p. 73 do texto base).

    Todas as situações de violência são rechaçadas no ministério de Jesus: “... Amai os vossos inimigos...” (Mt 5,43). Nada se compara a uma atitude misericordiosa. Só ela é capaz de quebrar todo desejo ou fomento de violência.

                                                                                      

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 + Sérgio

Bispo Diocesano

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