O diálogo inter-religioso que nasce da escuta do grito da terra e dos pobres

POSTADO EM 03 de Junho de 2020

O diálogo inter-religioso que nasce da escuta do grito da terra e dos pobres


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O Concílio Ecumênico Vaticano II reconheceu a importância do diálogo inter-religioso. Em 1965 foi promulgada a Declaração “Nostra Aetate” sobre a relação da Igreja com as outras religiões. Uma declaração pequena em seu escrito e densa em sua proposta. Segundo a Declaração: “Hoje o gênero humano se torna cada vez mais unido, e aumentam as relações entre os vários povos, a Igreja considera mais atentamente qual a sua relação com religiões não-cristãs”.(NA, 1).

A respeito da compreensão sobre as religiões, lemos na Declaração:

“Com efeito, os homens constituem todos uma só comunidade, todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem os fez habitar em toda a terra o inteiro gênero humano; tem também todos um só fim último, Deus, que a todos estende a sua providência, seus testemunhos de bondade e seus desígnios de salvação até que os eleitos se reunam na cidade santa, iluminada pela glória de Deus e onde todos os povos caminharão na sua luz. Os homens esperam das diversas religiões resposta para os enigmas da condição humana, os quais, hoje como ontem, profundamente preocupam seus corações: o que é o homem? qual o sentido e a finalidade da vida? que é o pecado? donde provém o sofrimento, e para que serve? qual o caminho para alcançar a felicidade verdadeira? que é a morte? o juízo e a retribuição depois da morte? finalmente, que mistério último e inefável envolve nossa existência do qual vimos e para onde vamos?” (NA, 1).

Uma declaração que, em aproximadamente uma única página, traz o que é fundamental para compreender o exercício do diálogo inter-religioso e qual é o esforço que é preciso ser feito. E, assim é dito aos católicos e católicas e a todas as pessoas a quem é dirigido o Concílio:

“Não podemos, porém, invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens, criados à sua imagem. De tal maneira estão ligadas a relação do homem a Deus Pai e a sua relação aos outros homens seus irmãos, que a Escritura afirma: “quem não ama, não conhece a Deus”. (1 Jo 4,8). Carece, portanto, de fundamento toda a teoria ou modo de proceder que introduza entre homem e homem ou entre povo e povo qualquer discriminação quanto à dignidade humana e aos direitos que dela derivam. A Igreja reprova, por isso, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação


ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou religião. Consequentemente, o sagrado Concílio, segundo os exemplos dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, pede ardentemente aos cristãos que “que observando uma boa conduta no meio dos homens” (1 Ped. 2,12), se, possível, tenham paz com todos os homens, quanto deles depende, de modo que sejam na verdade filhos do Pai que está nos céus”.(NA, 5).

Em relação a esse esforço ao empenho pelo diálogo inter-religioso, e, como podemos observar, consiste no reconhecimento que temos de uma origem comum e um mesmo fim último que é Deus e a todos estende a Sua providência, seus testemunhos de bondade e desígnios de salvação. E aquilo que temos em comum levar-nos-à convivência.

Não podemos invocar a Deus como Pai se não amamos o nosso semelhante. Não há fundamento algum proceder discriminando o outro e ferindo sua dignidade em seus direitos. A Igreja reprova toda e qualquer forma de discriminação ou violência praticada por motivos de raça, cor, condição e religião. Tal atitude é contrária ao espírito de Cristo, cujo apóstolos Pedro e Paulo pedem ardentemente aos cristãos que observem boa conduta no meio dos homens, procurando na medida do possível ter paz com todas as outras pessoa humanas e sabendo que é dessa conduta pacífica que podem ser chamados de filhos e filhas do Pai que está nos céus.

Como vimos, muitas são as razões para o diálogo inter-religioso. Há questões que são de caráter doutrinário e mesmo de cunho teológico e as religiões diferem-se em suas compreensões, mas podem aprender um com o outro, procurando conhecer sua teologia. Outro modo do diálogo inter-religioso é cultivarem momentos de oração comum. Mas, o espaço do diálogo inter-religioso acontece em sua perspectiva social. O empenho que fazemos para promover a paz é o sinal de que podemos reconhecer-mo-nos como irmãos e irmãs.

O profeta Isaías diz que “O fruto da justiça será a paz; e a obra da justiça proporcionará tranquilidade e segurança eternas” (Is 32,17). No diálogo inter-religioso procuramos a Paz. O próprio Papa Francisco chama as religiões a um diálogo em vista da promoção da paz. Em um vídeo que fez sobre o diálogo das religiões e a paz disse:


“A maior parte dos habitantes se declara crente. Isto deveria provocar um diálogo entre as religiões. Não devemos deixar de orar por ele e colaborar com os que pensam diferente. Muitos pensam diferente, sentem diferente, buscam Deus e encontram a Deus de maneira diferente. Nesta multidão, neste leque de religiões, há uma só certeza: todos somos filhos de Deus”. (Cf. Vídeo do Papa em 06/01/2016. Acesso em: 01/06/2020).

O Papa Francisco concluiu este vídeo pedindo que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diversas religiões gere frutos de paz e de justiça. Quando lemos a Declaração a afirmação de que toda forma de discriminação e violência a qualquer pessoa humana por raça ou cor, religião ou condição é contrária ao espírito de Cristo, então, compreendemos o que precisamos fazer sendo cristãos e cristãs em relação ao diálogo inter-religioso: agir com boa conduta e procurar conviver em paz com todas as pessoas.

E agir com boa conduta é respeitar o outro e conviver em paz é procurar empenhar-se em promover a justiça em favor do outro que é discriminado por causa de sua crença. Neste sentido, o diálogo inter-religioso é um compromisso para garantir a liberdade religiosa que é um direito fundamental da pessoa humana. Este compromisso, é antes, uma obrigação do Estado que tutela a garantia constitucional deste direito.

As religiões, por sua vez, procuram unir-se para juntas garantirem seu direito e, ao mesmo tempo, buscam por meio de espaços de diálogos que promovem junto à sociedade envolvê-la na busca por promover políticas públicas que favoreçam a liberdade religiosa. Sabemos da realidade das religiões de matrizes afro como também de cunho oriental que sofrem discriminações e perseguições que culminam na destruição de seus templos e ameaças aos seus líderes.

Cada vez mais o diálogo inter-religioso se impõe como urgente e necessário, pois tem havido uma crescente de intolerância religiosa em nosso país. Dom Walmor, presidente da CNBB, numa entrevista em que foi chamado a apresentar o cenário que se espera para a Igreja Católica no Brasil em até 5 anos, afirmou, que a primeira ameaça que a Igreja terá que lidar e já está sofrendo, é o crescimento de grupos conservadores e reacionários no interior da própria Igreja.


Estes grupos conservadores e reacionários dividem a própria Igreja, pois se posicionam contrários ao Magistério do Papa Francisco e mesmo às posturas da CNBB, sem contar que suas posturas em relação ao ecumenismo e diálogo inter-religioso são de abominação e reforçam a intolerância quando não partem também em violência contra outros grupos religiosos.

Diante de tantos desafios, vemos como faz-se importante o diálogo inter-religioso como espaço para cuidar e proteger a vida dos irmãos e irmãs. Contudo, o Pai não abandona nenhum de seus filhos e filhas, e assiste a cada um e cada uma. E isto é o que experimentamos em nosso serviço ao diálogo.

As religiões escutam os gritos da terra e dos pobres e, neste tempo de pandemia, estão ainda mais atuantes. O sofrimento e a dor de muitos irmãos e irmãs faz com que as religiões articulem-se ainda mais para buscarem por meio de suas redes de solidariedade o auxílio necessário para atender tantas famílias em situações de extrema miséria como vivem inúmeras delas na Grande São Paulo.

Neste momento os líderes religiosos também têm buscado apoio um no outro, pois acolher a dor de cada um é um modo de ser solidário e fraterno. Estamos procurando promover este diálogo permanentemente nesses encontros e conversas online através das diversas plataformas disponíveis.

Ser cristão é um modo de ser, e de fato, agir com boa conduta e buscar, enquanto possível, conviver em paz com todos. É o que se espera de quem vive a partir do espírito de Cristo.

A regra de ouro das religiões, o “não faça ao outro o que não quer que seja feito a ti mesmo” e que no Cristianismo compreende-se na máxima do mandamento novo do amor: “Ama ao próximo como a ti mesmo” é o sentido mais profundo de ser instrumento da Paz que devemos almejar como Dom a pedir ao Senhor. É o que pedimos em nosso diálogo inter-religioso. Ensina-nos Senhor a sermos instrumentos da Tua Paz.

E como ensinava São Francisco de Assis “só quem tem a Paz dentro si pode levar a Paz”. E ao acolher a Paz em nossa vida, sentiremos em nós arder o coração por buscar amar de verdade as pessoas querendo o seu bem. Só com amor, a Ternura em nós, seremos sensíveis ao grito da terra e dos pobres e, então manifestaremos nossa compaixão feita justiça a seu favor.


Pe. José Antonio Boareto

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