O novo presbítero católico e as novas identidades

POSTADO EM 05 de Novembro de 2019

O novo presbítero católico e as novas identidades*


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Começo com uma pergunta o que é novo: o presbítero ou os “sinais dos tempos”? Ambos são novos se entendemos que o presbítero está para a cultura como a cultura está para o presbítero.


Vivemos numa sociedade plural e globalizada. Este processo de globalização é também de secularização. Com a modernidade houve uma mudança antropológica que trouxe outra compreensão do que seja a história e mesmo a pessoa humana. A verdade do homem que antes se encontrava na busca metafísica e ou mesmo em sua relação com a fé é reduzida a ação. A história é a ação dos homens e a verdade do homem é o que faz.


Essa compreensão antropológica favoreceu uma visão quanto à noção de progresso e desenvolvimento relacionando a capacidade do homem de fabricar. No período moderno assistimos ao desenvolvimento tecnológico que o homem alcançou sendo capaz de produzir um poder ilimitado e que hoje coloca em xeque a própria ética que deve nortear o homem.


A religião foi relegada ao Estado e este deve garantir sua tutela enquanto direito a liberdade religiosa. Contudo a fé não consegue encontrar lugar numa visão de mundo que não consegue se determinar para além da ação. O pensamento único que hoje se impõe no globo nos desafia enquanto pensar o novo presbítero e as novas identidades.


Nossos vocacionados, seminaristas e presbíteros são frutos desta ideologia libertária e tecnocrática que se impõe como pensamento único. A ideologia libertária se expressa como o direito de fazer o que se quer e a ideologia tecnocrática como visão do progresso e desenvolvimento considerando apenas o aspecto estritamente econômico.


O seminário não consegue ser uma redoma que protege os seminaristas desta cultura liberalista que também tem sua expressão num sistema capitalista que visa o lucro acima da dignidade humana. A reflexão em torno da relação trabalho e capital precisa ser feita. A Doutrina Social da Igreja alerta para a ausência de ética nos diversos âmbitos que envolvem as relações humanas e institucionais. E mais, aponta o desafio do diálogo da razão com a fé como necessária para uma urgente consciência dada pelo senso religioso da fraternidade.


O desafio do século XXI é vivermos unidos e conviver com as diferenças. Também este é o desafio da formação presbiteral e do futuro da Igreja e das igrejas e outras religiões e também os ateus e toda pessoa de boa vontade. Como viver unidos convivendo com as diferenças? A pluralidade traz o desafio do relativismo ético, uma vez que há a tomada consciência dos direitos a serem exigidos, mas não os deveres que deles acarretam enquanto são expressões de responsabilidade.


A ênfase ao indivíduo se faz sentir quando percebemos uma erosão do comunitário. Essa realidade se faz perceber no âmbito eclesial católico, mas também em outros. A religião do Eu dá lugar a religião do outro. As ofertas de sentido são tantas quanto se pretendem encher as igrejas com uma clientela que seja atendida em suas necessidades emergenciais.


Não se trata de um novo presbítero, mas sim de novas identidades que assume o presbítero, uma vez que a identidade não é fixa, mas fruto das relações que está inserido ou se insere. Assim temos presbíteros cantores, presbíteros educadores, presbíteros empresários, etc.


Mas poderíamos nos perguntar, mas quem é o presbítero? Como ensina Santo Agostinho faz-se necessário buscar o que há de comum e isso é encontrar a essência. Diria que embora o presbítero possa estar inserido dentro dessa “mudança de época” ele precisa compreender que a Igreja continua compreendendo a essência do presbítero que permanece a mesma, mas nunca a mesma pois vivemos em permanente processo de “aggiornamento”.


As buscas por “seguranças do passado” em sua compreensão do que seja presbítero não favorece uma consciência de viver o presente voltado para o passado e com os olhos no presente. O viver do passado sem considerar o presente é simplesmente um perder-se no tempo.


Uma definição clássica ensina que o presbítero é o sacerdote. Ser sacerdote é ser aquele que se sacrifica, se faz vítima, se faz oblação por amor a Cristo, que doa sua vida semelhante a Cristo por amor aos irmãos e irmãs. Ser sacerdote é ser “alter Christus”.


Numa sociedade da imagem como a nossa, onde parecer ser é considerado expressão da verdade buscam sobretudo as novas gerações sacerdotais recuperar as vestes sacerdotais conforme o que ensinava São Pio X e que depois foi retomado por São João Paulo II. O “Alter Christus” significa revestir-se de Cristo. Num livro de espiritualidade da Idade Média muito lido pelos seminaristas “A imitação de Cristo” se fala da consciência que deve ter o sacerdote quando veste a casula que traz na frente a cruz para lembrar-lhe por quem ele está oferecendo sua vida e atrás outra cruz para lembrar-lhe que também deve estar aberto para ser crucificado por amor a Cristo.


Neste sentido recuperar a essência do que seja o sacerdote é urgente. O padre é “alter Christus”, mas jamais será um outro Cristo totalmente, pois é homem e portanto pecador. Bento XVI em seus pensamentos sobre o sacerdote diz que as pessoas buscam no padre um homem de Deus. Ser padre é ser um homem de Deus que leve as pessoas para Deus e aproxime Deus delas.


Levar as pessoas para Deus é o que elas esperam que façamos. E como fazer isso? Depois do Concílio Vaticano II se reconheceu que todo Povo de Deus é sacerdotal e que o ministério ordenado se difere do extraordinário pelo serviço. O Sacramento da Ordem é sacramento de serviço. O padre é o presbítero, ou seja, faz parte do presbitério e tem como sua primeira missão a fraternidade presbiteral unido ao Bispo Diocesano. No presbitério diocesano o padre vive sua missão enquanto o presbitério é sinal coletivo do Bom Pastor junto às comunidades e em espírito de diocesaniedade.


O presbítero é ordenado para servir através do múnus da palavra, liturgia e caridade. Cabe ao presbítero guiar e animar a comunidade para viverem o encontro com Cristo vivo através da Palavra através da Iniciação Cristã, a Liturgia através da Celebração Eucarística e os Sacramentos e a Caridade através de favorecer na comunidade cristã uma cultura da misericórdia (obras de misericórdia espiritual e corporal) através do serviço aos pobres.


Diante do momento atual ainda se coloca para o presbítero o desafio do diálogo com a cultura atual através da nova evangelização, mas também promover a evangelização ad gentes como também empenhar-se em promover o ecumenismo e o diálogo inter-religioso.


A Igreja tem muito claro para si quem é o presbítero. Agora cabe clarear isso para o presbítero ou o candidato ao presbiterado. Do Pontificado do Papa Francisco faz ressoar a nós suas palavras sobre como deve ser o pastor “com cheiro de ovelhas”. Em tempos de mídia e de uma sociedade da imagem e também virtual, as relações de proximidade e a cultura do encontro estão ficando em segundo ou terceiro plano.


Precisamos de presbíteros nos areópagos da comunicação, mas também precisamos de presbíteros que vão as periferias geográficas e existenciais. Todo seminarista quer ser um São João Maria Vianney dizem e muitas vezes o usam com a justificativa para dizer que não precisam buscar uma formação permanente. Enganam-se, pois se São João Maria Vianney viveu uma vida tão coerente quanto a que conhecemos de suas biografias, isso só foi possível porque antes era um homem de Deus atento ao seu tempo.


Só um homem de Deus capaz de uma sensibilidade para compreender o sofrimento das pessoas ficaria horas e horas a atender confissões, pois suas palavras de conforto atraiam a todos e todas. O confessionário é o lugar onde as pessoas experimentavam a misericórdia de Deus e não uma câmara de tortura, por isso dizia: “As nossas culpas são um grão de areia comparadas com a grande montanha da misericórdia de Deus” ou ainda “O Bom Deus é mais rápido para perdoar um pecador arrependido que uma mãe para puxar o seu filhinho para fora do fogo”.


Só um homem que tivesse uma certeza dessas onde ensina que “O homem foi criado por amor: é por isso que ele é tão inclinado a amar. Ele não é feliz, exceto quando se volta para Deus...Tire um peixe da água e ele não viverá: assim é o homem sem Deus” poderia ser um cura, pois é para isto que existe o padre: existimos para curar as dores humanas e isso fazemos em nome de Cristo que age em nós.


Parafraseio São João Maria Vianney e digo a vocês: “Se soubéssemos como Nosso Senhor nos ama, morreríamos de felicidade!” e por fim termino falando dos pecados do padre, pois somos homens. E homens de Deus. Ultimamente estamos assistindo a um processo de purificação da Igreja nunca visto como antes. Se Jesus nos diz vós sois a luz do mundo então para ser luz é preciso sair das trevas. Tudo que está oculto será revelado. As trevas não podem com a luz.


Por mais dolorido que seja, e nos envergonhemos da Igreja por causa dos pecados e crimes cometidos por seus ministros, não desanimemos, e que possamos reconhecer que a justiça está sendo feita. Não o olho por olho, dente por dente, mas a justiça enquanto primeiro degrau do amor. Como aprendemos com o Papa Francisco baseando-se no ensinamento de São Paulo: Se um membro sofre todo o corpo sofre com ele.


O clericalismo é o pecado da Igreja e ele está sendo vencido por cada ato de justiça que é expressão da caridade para com aqueles que foram violentados e ao mesmo tempo é reparador de quem cometeu tal agressividade. Temos muito que nos converter ainda. A conversão é permanente e é a cada dia.


Configurar-se a Jesus bom pastor é o convite a conversão permanente que cada presbítero é chamado a fazer a cada dia. Por amor dar a vida é o que nos pede Jesus Bom Pastor que ensina que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelas suas ovelhas.


Para isto é preciso buscar viver um estilo de vida mais pastoril e menos principesco, com maior proximidade junto do povo confiado. Ir ao encontro das pessoas oferecendo os Sacramentos, levando a benção de Deus, visitando as famílias, acompanhando as pessoas nos momentos fundamentais da sua vida, estando com elas em suas dores.


Diria ainda sobre as tentações que nos pertubam e não permitem que vivamos numa intimidade com o Senhor. Nos ensine o próprio São João Maria Vianney que diz: “As tentações não tem nenhum poder sobre um cristão cujo coração é verdadeiramente dedicado à Virgem Maria”. Papa Francisco nos ensina seguindo o ensinamento de São Bernardo de Claraval: Em qualquer situação invoca Maria. E sobretudo na hora da Cruz saibamos ela lá está conosco não deixando-nos passar esse sofrimento sozinho.


Não se esqueçam dos pobres, frase dita pelo Cardeal Dom Cláudio Hummes que ouviu o Papa Francisco e que deu o sentido do seu pontificado. Também os futuros presbíteros tenham no seu coração lugar para o Cristo. Papa Francisco ensina que é preciso tocar Cristo na carne sofrida do pobre. Como disse Pe. Júlio Lancellotti na sua fala por ocasião dos 70 anos da Teologia da PUCSP: “Não é só rezar pelos pobres, mas ir ao seu encontro, ir comer com eles, estar com eles”.


E ainda falaria de um pobre que estamos esquecendo, os próprios padres, ou vocês mesmos. Donalz Cozzens em seu livro “A face mutante do sacerdote” ensina que estamos nos escondendo atrás da batina e essa expressão pode ter muitos significados por isso mesmo face mutante, e infelizmente, por detrás da batina tem um homem frágil que está muitas vezes se isolando ou foi isolado, sozinho busca respostas as suas angústias em divertimentos fúteis, quando não empenha a vida em buscar poder, privilégio e prazer para substituir tal vazio.


O que precisamos é acolher esse pobre homem de Deus que precisa encontrar a Cristo encontrando-o num amigo. Cozzens diz que a amizade no clero é uma riqueza, não só no clero eu diria, na vida, como ensina a sabedoria bíblica, quem encontrou um amigo encontrou um tesouro. Que vocês possam encontrar um verdadeiro amigo de caminhada, e que Deus abençoe vocês que tenham amigos e amigas também, mas peçam por um amigo no seminário, quem sabe um de turma, alguém que como você acredita e quer viver sendo presbítero, alguém que quer livremente abraçar o celibato por amor do Reino de Deus.


Por mais que o mundo não acredite ou ache impossível viver assim aqui estamos nós dizendo primeiramente para nós eu Creio que tu me chamaste porque me amaste e eu também quero te amar de todo meu coração e com toda minha força. Sozinho é difícil, mas tendo um amigo como companheiro a caminhada se torna mais leve.


Te desejo de todo o meu coração que você seja um outro Cristo para estes tempos em que as pessoas nada mais querem que nós sejamos alguém que as leve para Deus e as aproxime Dele. Um homem de Deus que proclama com a vida e com o ministério que o nome de Deus é misericórdia. Nossa humanidade está ferida e ela precisa de misericórdia.




Pe. José Antonio Boareto




• Este texto é a fala que pronunciei por ocasião da conferência que proferi no Congresso Estadual dos Estudantes de Teologia deste ano.






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