Rezar a Palavra

POSTADO EM 08 de Setembro de 2017

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Por Pe. José Antonio Boareto

            Neste mês somos convidados e convidadas à crescer na intimidade com a Palavra. A Palavra é mais que o texto bíblico, a Palavra é o próprio Jesus, como ensina São João no seu Evangelho: “O Verbo (Palavra) se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

            Cremos que Cristo vivo e ressuscitado vive no meio de nós. Cremos na sua presença. O texto bíblico, sobretudo, os evangelhos, é uma mediação que nos ajuda a conhecer as experiências de fé das comunidades, a aprendermos quem era Jesus para elas e entender como através da fé responderam as necessidades e urgências de suas realidades naquele tempo.

            Os evangelhos são verdadeiros “rostos de Jesus”, ou seja, tecidos a partir da realidade de cada comunidade e verdadeiramente é Palavra de Deus, pois a vivência que tiveram se deu na fé no Crucificado-Ressuscitado.

            Na tradição cristã foi encontrado um modo que favorecesse essa experiência conhecido como “Lectio Divina” ou Leitura Orante da Bíblia. Os monges e os padres é que conheciam este método. Reconhecemos Orígenes como fundador de tal método e o monge Guigo em 1150 como seu sistematizador. Esse método é popularizado depois do Concílio Vaticano II e tem sido utilizado pela Igreja católica e outras igrejas cristãs.

            No Brasil temos a experiência do CEBI (Círculo Ecumênico Bíblico) que procura demonstrar que é possível os cristãos e as cristãs vivenciarem a fé no cotidiano confrontando a própria vida com os valores do Evangelho.

            Além desta iniciativa, todo ano a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) propõe no mês de setembro uma reflexão a partir de um versículo bíblico para reflexão e oração. É elaborado um subsídio que considera o método de interpretação da Bíblia na Igreja, ou seja, considera a fundamental importância que o método histórico-crítico tem para sua justa compreensão.

            Este ano o tema foi retirado na 1 Carta de São Paulo aos Tessalonicenses no capítulo 2 versículo 8: “Anunciar o Evangelho e doar a própria vida” (1 Ts 2, 8). A partir da interpretação do texto no contexto pode-se compreender o ambiente social e mesmo entender o gênero literário e outras informações adjacentes que se pode oferecer do texto.

            Assim lemos no documento da Comissão Pontifícia Bíblica: “O método histórico-crítico é o método indispensável para o estudo científico do sentido dos textos antigos. Como a Santa Escritura, enquanto Palavra de Deus em linguagem humana, foi composta por autores humanos em todas as suas partes e todas as suas fontes, sua justa compreensão não só admite como legítimo, mas pede a utilização deste método”.

            A interpretação a partir do método histórico-crítico não é o único, mas necessário para que possamos fugir ao fundamentalismo que atualmente tem marcado a comunicação da Palavra de Deus na sociedade. A leitura literal do texto sem o necessário conhecimento do que diz o texto (a leitura do contexto) pode ser prejudicial para uma melhor compreensão do que Deus de fato pretende comunicar àquela comunidade e ou pessoa.

            A “Lectio Divina” em seu método sistematizado pelo monge Guigo é compreendido por degraus. Ele escreveu um livro chamado de “A Escada dos Monges”. Teria dito ele a outro monge:

Certo dia, durante o trabalho manual, quando estava refletindo sobre a atividade do espírito humano, de repente se apresentou à minha mente, a escada dos quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração e a contemplação. Essa é a escada dos monges, pela qual eles sobem da terra ao céu. É verdade, a escada tem poucos degraus, mas ela é de uma altura tão imensa e inacreditável que, enquanto a sua extremidade inferior se apóia na terra, a parte superior penetra nas nuvens e investiga os segredos do céu. (...) A leitura é o estudo assídio das Escrituras, feito com espírito atento. A meditação é uma diligente atividade da mente que, com a ajuda da própria razão, procura o conhecimento da verdade oculta. A oração é o impulso fervoroso do coração para Deus, pedindo que afaste os males e conceda as coisas boas. A contemplação é uma elevação da mente sobre si mesma que, suspensa em Deus, saboreia as alegrias da doçura eterna.

                Estes degraus ou passos para a oração hoje é assim apresentado: 1. Ler – O que diz o texto? (considerar o contexto do texto); 2. Meditar – Saborear o texto (mastigar para tirar proveito a palavra ou frase que mais me chama a atenção); 3. Orar (perceber os apelos de Deus) e 4. Contemplação – Novo olhar (na perspectiva inaciana – contemplar – é ter nova atitude).

            A Leitura Orante da Bíblia coloca o fiel em movimento, ela não está concluída, ela só irá se realiza quando chega à ação. Assim ensina Bento XVI na Verbum Domini: “Há que recordar ainda que a lectio divina não está concluída, na sua dinâmica, enquanto não chegar à ação (actio), que impele a existência do fiel ao doar-se aos outros na caridade”. (n. 87)

            A própria Verbum Domini ainda oferece Maria como modelo para todo fiel no acolhimento dócil da Palavra: “Estes passos encontramo-los sintetizados e resumidos, de forma sublime, na figura da Mãe de Deus. Modelo para todo fiel de acolhimento dócil da Palavra divina, Ela “conservava todas essas coisas, ponderando-as no seu coração” (cf. Lc 2,19; Lc 2, 51)”. (n.87).

            A Igreja motiva a leitura orante da Bíblia de modo individual e o recomenda, mas afirma que o lugar privilegiado para a “lectio divina” é a Liturgia, isto é, na Eucaristia. A Palavra é por excelência encontro com o Cristo Vivo e Ressuscitado que fala a comunidade reunida em Celebração e faz suas testemunhas para irem pelo mundo anunciar o Evangelho e doar a própria vida.        

 

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