Autoridade e Serviço

POSTADO EM 05 de Setembro de 2017

Por. Mons. Giovanni Barrese

    Nas leituras bíblicas propostas na celebração do final de semana (26-27) deste mês ficou patente a reflexão sobre o que significa ter, exercer, autoridade. A leitura do profeta Isaias (22,19-23) faz relato sobre o, chamemos, mordomo do rei de Judá. Estamos no século VIII antes de Cristo. O mordomo chama-se Sobna. O que aconteceu? Ele sonhava em construir para si mesmo um mausoléu que o eternizasse. Por que? Não havia, naquela época, a certeza da vida eterna. A concepção da vida plena era vivida na vida terrena: família grande, saúde e riqueza (lembram do livro de Jó?). O que acontecia após a morte? Ida para o sheol, a casa dos mortos. Lá se ficava como larvas. A morte igualava todo mundo! Então, de que jeito se viveria o desejo profundo da felicidade? Por aqui mesmo! Para não ser esquecido era importante ter um memorial. Quem não se recorda das pirâmides do Egito?

    Sobna sonha com um monumento à sua memória. Como não tem todo o dinheiro, mas administra as riquezas do rei, aí encontra a solução. Com conchavos e acertos vai tecendo seu sonho. Descoberto é destituído. Perde o cargo. Em seu lugar o rei coloca Eliacim. O cerimonial de sua posse fala em vestes significativas, na entrega das chaves pesadas (levava nos ombros) e missão de ser um pai para os que dependiam do rei.

    Importa aqui lembrar que quem recebia as chaves tinha poder no palácio. Ele é aquele que permitia ou não a chegada das pessoas até o rei. Também aquele que tomava decisões para socorrer os mais pobres.

    Coloquemos em paralelo o trecho do Evangelho de Mateus (16,13-20). Jesus faz pergunta a seus discípulos, não por mera curiosidade, mas para ver se sua palavra e suas atitudes estavam revelando ao povo quem ele era. As respostas vão na linha da tradição judaica:  ele é um profeta assemelhado aos outros profetas. Jesus pergunta aos seus mais próximos: Para vocês quem sou eu? Pedro toma a dianteira: Você é o Messias, o filho do Deus vivo! Jesus elogia a Pedro pela resposta e lhe dá o poder, a autoridade das chaves! Promete que o inferno não vencerá a sua igreja, o seu povo, e que ele, Pedro, teria a missão de ligar ou desligar o relacionamento com o céu.Image title

    Que sentido fundamental encontramos na entrega das chaves a Eliacim e a Pedro? Cuidar do povo de Deus (Judá e Igreja)! A autoridade não está fundada nas pessoas. Está fundada na missão que lhes é dada. No caso de Pedro o fundamento está na sua missão de manter a Igreja fiel na mesma profissão de Fé que ele proclamou! Sua missão é cuidar do povo de Deus como um pai. Para que o povo não se desvie de proclamar que Jesus é o Senhor!

    A concepção de autoridade está radicada no serviço com caráter paternal. Não se trata de paternalismo. Trata-se de cuidar como pai. Penso que esta intuição e orientação profundas deveriam nortear todos os que são chamados a governar, a tomar conta daquilo que se chama bem comum de um povo, de uma comunidade, da Igreja. Cuidar como pai!

    Em tempos complicados, como estes que vivemos, nota-se como é importante ter consciência da grave missão de quem tem as chaves na mão!  Não é o voluntarismo pessoal que deve comandar o que fazer! Muito menos a exacerbar-se diante as dificuldades que dificultam, atrasam ou emperram os caminhos a serem seguidos. A arte de ter as chaves e de poder manuseá-las implica nunca perder a paciência diante daqueles que desejam chegar até o Rei. Seja rei aquele que tem a responsabilidade de ver o que é melhor para seu povo, ouvindo os que compartilham a defesa do bem comum. Seja achegar-se ao Rei dos Reis. Na ânsia do encontro com Ele para confirmar a esperança que vale a pena segui-lo!

    Temos muito a aprender tanto na esfera civil como no caminho das nossas comunidades de Fé! E vale aqui, como final destas linhas, lembrar que Jesus ordenou que, depois da declaração de Pedro, os discípulos não falassem a ninguém que ele era o Messias. Exatamente porque na cabeça de todo mundo só cabia o Messias rei. Que cuidaria do seu povo, sem dúvida, mas teria inimigos a serem derrotados! E Jesus é o que deu a vida por todos! A raiz da profissão de Fé em Jesus e a convicção que sua autoridade é Amor!

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